Tempo é mistério.
Todo dia é como o dia a dia, mas quando se olha para trás, tudo é diferente. O que aconteceu ainda está por vir. E o futuro não é mais como era antigamente.
Há quem diga que todo tempo é o mesmo, mas eles não compreenderam. Seu ritmo é fluído, como um rio. Sempre água, mas não a mesma água. Com trechos de corredeiras, ora calmaria. Não se pode conter.
As diferentes gravidades das situações alteram o ritmo temporal. Assim, peço que a dor seja corredeira e a calmaria longa.
Sobre seus enigmas, nem Einstein pôde resolver; antes, descobriu ser mais complicado, relativo. É como correr para alcançar o Sol, mas ele está se pondo e dando a volta - até surgir atrás de você novamente.
O tempo, gentil para uns, inimigo para outros. A sombra dos amantes, a luz para os de coração partido. Embora possa ser contado em contagens regressivas, não se pode mensurar seu valor. Não se investe em capital temporal com ouro. Tempo não é dinheiro para ser comprado.
Cansei de brigar com o tempo o tempo todo.
Eu não quero acelerar. Não. Tenho pressa de uma vida sem pressa. Não quero viver esperando o mês virar e o semestre acabar. Não. Eu quero mais tempo.
Quero ouvir e ser ouvida, n’alma, com calma. Quero olhar nos olhos e enxergar história. Quero entender e ser compreendida. Quero mais que um esbarrão, quero o tangível que não me foge ao toque.
Quero conversas esparramadas na mesa. Risadas que as paredes irão ecoar. Um café que se preserva o aroma. Alguém para amar à beira-mar. Palavras sinceras, atitudes honestas, porque não tenho tempo a perder com fingimentos.
Pois da minha vida não faço profissão, mas memória. Para mim e para você. Este é meu presente. E essa é a construção que o tempo não torna ruína.
Ainda que o tempo seja complexo, indomável, relativo, fluído, uma coisa é certa, o tempo não ressuscita.


